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segunda-feira, maio 28, 2012

NEM SEMPRE É PRECISO SACRIFICAR UM ANIMAL FERIDO. ÀS VEZES BASTA TIRAR O ESPINHO.


"De todos os bichos da floresta o escorpião era o mais temido. Até mesmo o leão e o elefante davam um passo para o lado para deixá-lo passar.

O tigre, coitado, certa vez, distraído, deitou-se sobre o ninho do escorpião, e por muitos dias a floresta inteira não pôde dormir por causa de seus urros de dor.

O escorpião gostava disto. Dava risadas quando pensava em sua fama de bicho mau. O seu rabo era ereto, pontudo, venenoso, doloso... e a forma como os bichos o olhavam lhe dizia o quanto ele era temido e respeitado. A alma do escorpião morava no seu rabo, que tanto mais subia quanto mais pavor pudesse provocar nos outros.

Havia só uma coisa que o assustava. É que, vez por outra, lhe apareciam uns sentimentos estranhos, impróprios de um escorpião: uma vontade de gostar, uma vontade de ser gostado. Mas essa era uma tentação da qual se livrava com facilidade. Bastava picar um ou dois bichos que encontrasse no caminho. Ele era o oposto da madrasta da Branca de Neve. Não queira ser o mais bonito. Isto era coisa para o pavão ou a arara.

Queria era ser aquele que causava terror. Pois é: o escorpião pensava que quem ama e é amado fica manso e abaixa o rabo. E para o escorpião o pior que lhe poderia acontecer era que o seu rabo abaixasse. Se isso um dia acontecesse, ele se mataria para fugir da vergonha. 

Pois o escorpião tanto terror tinha de afeto que uma coisa sempre se repetia. Depois que o casal de escorpiões apaixonados se abraçava e se amava vinha logo a raiva de ter amado e de ter gostado. E, enfurecido, o mais rápido se lançava sobre o outro, distraído, com boca, tenazes e ferrão. E zás! Era uma vez um escorpião, transformado em refeição...

Os bichos fugiam apavorados, jurando que nunca se aproximariam de animal tão malvado. O que só fazia aumentar o orgulho do escorpião.

E o escorpião, de barriga cheia, repetia, orgulhoso, o moto que o inspirava: 'FALE SUAVEMENTE, TENHA SEMPRE PRONTO O FERRÃO: VOCÊ IRÁ LONGE...' "


O final da história vai em versão reduzida. O escorpião se fode, pois a floresta pega fogo e só havia um jeito de escapar: atravessar o rio, mas como o escorpião nem tinha amigos e nem sabia nadar se deu muito mal, como na vida real!

Rubem Alves - O escorpião e a rã


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