evão do caminhão

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terça-feira, janeiro 22, 2013

A PERGUNTA É: POR QUE LEMBRAMOS O PASSADO E NÃO O FUTURO?

A ideia de dirigir até Valinhos depois de um fim de semana em ritmo de maratona não me agradou. Ainda mais pra ir em um velório de alguém que nunca tinha visto na vida.

Porém, quem acha que velório é só um dia triste nunca passou por um da minha família. Acho que as pessoas ficam guardando piadas especiais para essas ocasiões.

Ninguém nunca faz esforço para uma visita social, então aproveitam essas datas pra falar merda, muita merda. 

Vou voltar... minha bisavó era uma sinhazinha fazendeira de Valinhos, mas o que ela fez? Se apaixonou pelo cocheiro e optou por viver o grande amor completamente pobre. Meus avós poderiam ter se estabelecido  muito bem em qualquer cidade vizinha, mas não... resolveram virar operários aqui nessa porra de Guarulhos (!!!!). Desde então a família ficou separada em dois guetos: "os de lá" e "os de cá".

"Os de lá" recebiam a sobrinhada toda para os períodos de férias e "os de cá" eram os guias turísticos para compras no Mappin, jogos no Pacaembu, visitas ao Parque São Jorge e festas de reveillon com São Silvestre. Com o passar dos anos ninguém mais se viu, um telefonema ou outro no dia do aniversário e olha lá.

Eu não conhecia ninguém, mas ao mesmo tempo senti um tufão de nostalgia. Pareceu como se a história só se repetisse 70 anos depois.

Um dia, a psicóloga da escola que eu trabalhava me chamou e deu um puta esporro porque eu dava apelido para todos os alunos. O que pra ela era ofensa, pra mim sempre foi prova de carinho. Se você não tem apelido, é porque não é especial. Pelo jeito isso vem de gerações. Ninguém de Valinhos tem nome, só apelido. E o lance é tão arraigado que quando eu perguntava o nome original da pessoa ninguém lembrava pra me dizer.

E palavrão? Desde pequena eu escuto umas expressões que eram um tipo de pecado mortal. Eram eles (por ordem de infâmia): 1º. Porco cane, 2º. Porca de la madona e 3º. Porco dio. Nunca mais tinha escutado, mas ontem enquanto metade da família chorava a defunta a outra metade chegava gritando PORCO CANE, QUANTO TEMPO! PORCA DE LA MADONA, QUANDO VOCÊS VÊM VISITAR A GENTE?...

Devo ter uns roxos no braço de tanto que a italianada me apertou. 

No domingo eu encontrei meu caçulinha, meu FINHO e apesar dele estar todo fardado cuidando da segurança do estádio dei uns beijinhos e fiquei acarinhando. Minha vó fez igual com o caçulinha dela, o INHO. Ela com 90, ele com 79, mas caçulinha não tem idade pra chamegar! Eles podem errar muito, mas sempre são perdoados.

Também gostei de ver que esses meus zóios cor mutante são iguaizinhos os dos irmãos da vó. 

Sei que eu tava com medo da véia vó passar mal com a notícia da morte da irmã, mas no fim ela ficou tão feliz em reencontrar com os vivos "de lá" que a viagem valeu a pena. Agora fiquei com a certeza que ela vai passar dos 100. Niemeyer vai ser fichinha... a véia vai bater seu record de vecchiaia...



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